"Faço-lhe notar que um ser humano que não sonha é como um corpo que não transpira: armazena uma porção de toxinas"
Truman Capote

8.29.2011

Idiossincrasias


Tomei conhecimento por estes dias, que uma pessoa – qualquer pessoa – pode ser “anexada” a um grupo restrito do Facebook – qualquer grupo – à revelia da sua vontade…

Isto, para além de ser perigoso, parece-me espantoso!

Pessoa amiga foi pois “adoptada” por um desses grupos, sem ter sido consultada ou sequer informada. Quando tomou conhecimento, por interposta pessoa, manifestou primeiro espanto, depois repúdio, mas já estava…

Não sei nestes termos, qual a eficácia do desmentido perante a disseminação e proliferação de toda a informação e se calhar nada disto seria muito importante, não foram os pressupostos da coisa.

Tanto quanto me foi dado saber, para “ingressar” num desses grupos – qualquer grupo do Facebook – basta que alguém pertencente, indique uma pessoa do seu círculo de “amizade” não sendo necessária a concordância expressa do próprio!

Inadvertidamente e porque não nos é possível controlar toda a informação que se veicula, podemos neste momento fazer parte de uma qualquer agremiação ou congregação de vontades sem que o saibamos… basta que um “amigo” o queira.

Não sei qual a atitude da pessoa envolvida, se deu ou não importância ao assunto, nem isso me interessa. Se o caso se desse comigo, dar-me-ia ao trabalho de, enquanto não exigisse a pública e manifesta exclusão do grupo – qualquer grupo – de tentar encontrar quais os meus “amigos” também integrantes do dito, e perceber quem poderia ter sido o autor da proeza. Se calhar, e a partir daí, repensaria o meu círculo de amizades…

Sim porque para mim, consistiria numa grande proeza alguém conseguir “arrastar-me” para um grupo restrito, que se propusesse conduzir fosse quem fosse ao cargo de primeiro-ministro deste país ou de outro país qualquer.

É que para além do mais, e fazendo minhas as palavras de Woody Allen, “seria incapaz de pertencer a um grupo que me aceitasse como membro”…


8.23.2011

Assunto Encerrado


A experiência é a soma dos nossos erros

Susan Sontag


Errei!

Por outras palavras, acumulei experiência.
O errático e inconsequente presidente da AMI, foi a gota de água.
De facto, os políticos não são todos iguais. Tornam-se.
E a tal ponto o conseguem que todos juntos não fazem nem valem um (que se diferencie dos outros pela positiva).
Mas há mais água a correr sob as pontes e muitas mais gotas para fazer transbordar os copos.
Em mais um ataque de ingenuidade, acreditei que o actual ministro da educação fosse a pessoa capaz de fazer reverter a situação calamitosa a que o ensino chegou. A avaliar – é apenas um exemplo - pelo que se pretende fazer com o ensino do Português, não o é, porque o que vai continuar a ser feito, é tão-somente o favorecimento das estatísticas e a promoção da iliteracia.
Pois… o Nuno Crato, professor, divulgador, investigador… deu lugar ao Nuno Crato ministro, o qual, através das suas próprias palavras deu lugar a uma outra personagem que nada tem a ver com o perfil de rigor e cientificidade que durante anos fez acreditar que possuía. Para que não subsistam dúvidas, o Nuno Crato ministro, fez questão de nos informar que quando se está no governo “tem que se saber fazer as coisas”; quando se está de fora, apresentam-se “críticas e sugestões independentemente da oportunidade”.
Quanto a mim, Nuno Crato, o ministro, perdeu uma excelente oportunidade para estar calado… e de política, estamos conversados.

4.03.2010

Desalinhado



You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one
“Imagine”
Lennon, John


Com inúmeras provas dadas e imenso prestígio acumulado, com enorme capital de credibilidade e elevada dose de voluntarismo, eis que surge na disputa presidencial que se aproxima, um outsider.

Idealista e homem de causas, oferece o peito às balas e dispõe-se a ser triturado pelas máquinas partidárias à esquerda e à direita, pelos interesses estabelecidos da partidocracia e principalmente pela indiferença congénita do cidadão comum, relativamente ao que se passa à margem do alarido e dos holofotes.

Sem agenda política oculta ou apoios explícitos, entrou em cena com a mesma devoção e desapego que emprega nos teatros de guerra e catástrofe onde a AMI tem marcado presença assídua.

Apesar de todo o cepticismo que o sistema político-partidário em que vivemos me induz, vejo aqui uma oportunidade de redenção e confirmação.

Um pretexto para (voltar) a acreditar que é possível “meter pauzinhos na engrenagem”, pese embora a convicção que a engrenagem trucidará inapelavelmente esses “pauzinhos” perante o alheamento crónico dos nossos concidadãos.

Não lhe regatearei o meu voto como outros não lhe sonegarão o insulto e insinuarão a suspeita de ânsia de protagonismo e projecção mediática.

Certamente que este homem sonhou e continua a sonhar, como Luther King e outros mais, mas como é sabido os sonhadores não são deste mundo e muito menos da política. Incomodam, não se conformam e como tal devem ser marginalizados, ostracizados.

Fernando Nobre tem o futuro traçado!

Saudado seja pela coragem de o enfrentar.

3.21.2010

Poesia, poetas, poemas, poética...


Hoje é um dia especial... comemora-se o Dia Mundial da Poesia...
O mesmo é dizer, que se celebram os poetas, os tais que, nas sábias palavras de Maria Gabriela Llansol "vêm e anunciam a geografia imaterial por vir".

3.14.2010

Uma releitura de Shakespeare


(…)
Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem – muitas vezes por culpa dos nossos próprios excessos – atribuímos a culpa dos nossos desastres ao sol, à lua e às estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçada a influências planetárias, sendo toda a nossa ruindade atribuída a influência divina... Óptima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas pela sua natureza de bode.
(…)
"Rei Lear" William Shakespeare

3.07.2010

Desenhos Negros

Absolutamente a não perder, a retrospectiva de Robert Longo em exposição no Museu Colecção Berardo até 25 de Abril.

Maioritariamente constituída por desenhos a carvão em grande formato, inclui também escultura e pintura (esta integrada naquilo que Longo designa por Combines, onde mistura desenho, pintura e escultura).

Esta reunião de trabalhos “devolve-nos” a no desenho, no saber fazer que alguma “contemporaneidade” mais radicalizada foi subtraindo a esta disciplina, ao ponto de quase se considerar vexatóriamente académico (terrível epíteto este) um desenho figurativo, próximo do objecto que lhe serviu de modelo.

Longo sabe o que faz, e aquilo que faz é bem feito. O seu desenho é superiormente desenhado. Os trabalhos mostrados fazem parte de séries desenvolvidas com recurso a motivos recorrentes: vagas, explosões, tubarões, não deixando de fora a representação de rostos nos quais transparece uma grande serenidade não obstante a densa e inquietante penumbra que os envolve.

Presente também nesta exposição – e bem representada - a celebrada série “Men in the Cities”, da qual e um pouco ineplicávelmente um dos desenhos corre o risco de passar despercebido, dada a sua localização no átrio do Piso 0 em sítio pouco evidente.

2.28.2010

Um novo (já velho) flagelo

A Trilogia do Lixo - 3



É impossível falar de lixo sem falar de plástico, até porque, grande parte deste lixo não é bio-degradável.

O plástico (designação lata onde “cabe” um sem-número de matérias diferentes e diversas) é na actualidade, o equivalente às pragas bíblicas. A forma como invadiu as nossas vidas é massiva, contundente e aparentemente inelutável e irreversível.

Se olharmos em volta, verificamos isso mesmo, estejamos onde estivermos, estamos cercados de plásticos! Inclusivamente, em aparelhos vitais para a nossa subsistência e sobrevivência o que é ainda mais dramático, não havendo a este nível muito que se possa fazer para além de tomar posição, erguer a voz, protestar e fazer passar a mensagem no sentido de alertar consciências e tentar – tentar sempre – que uma tomada de consciência colectiva possa fazer inflectir o sentido em que vai avançando a “máquina produtiva”, pressionando a utilização de substancias bio-degradáveis, sem custos para o ambiente.

Podemos assobiar e olhar para o lado como se não fosse nada connosco. Podemos argumentar que temos mais em que pensar e mais com que nos preocuparmos para além desta coisa do ambiente, esquecendo que o ambiente, também somos nós e o nosso comportamento, podendo este ser melhor ou pior, por isso mesmo.

É confortável e alivia a consciência pensar que a responsabilidade cabe aos governos e às instituições e que nós pouco podemos fazer. Para além de ser um conforto pequeno, é também uma grande mentira! Podemos e devemos fazer qualquer coisa, basta querer. Para querer, não é preciso tomar nem atitudes radicais nem fundamentalistas, as nossas atitudes podem ser pequenas mas formativas e pedagógicas.

Neste âmbito, reduzir, reutilizar e reciclar, são as palavras-chave.

Existem algumas superfícies comerciais que instituíram os sacos de compras pagos, sejam eles reutilizáveis ou não. Este pormenor reduziu substancialmente a utilização de sacos de plástico. Já são muitas as pessoas que quando vão às compras levam o seu próprio saco anteriormente adquirido. É assim no “Pingo-Doce”, e é assim no “Mini-Preço” e no “Lidle”, para só citar alguns exemplos de uma atitude louvável.
Como louvável é a atitude dos responsáveis das livrarias "Trama" e "Letra Livre" que não usam sacos de plástico.

Mas há mais que se possa fazer, como seja o recusar – dizendo porquê - sacos inúteis, seja porque já transportamos um saco reutilizável, seja pela sua precaridade qualitativa ou dimensional que nos façam prever que não vai servir para nada. Exemplos? Os sacos pequenos das farmácias, os sacos pequenos da Fnac, entre muitos outros.

Se aceitarmos sacos por não ter como recusar, devemos proceder à sua utilização sucessiva até esgotar as suas possibilidades…

Algo a que é difícil escapar é a proliferação de copos de plástico em bares, cafés e nas máquinas automáticas que pululam um pouco por tudo o que é empresa, escola ou instituição, acompanhadas dos inevitáveis copos e colheres de plástico. Há que pressionar para que seja procurada outra solução para os recipientes que estas máquinas usam.

No caso particular dos espaços de diversão nocturna é compreensível que não haja condições para fornecer recipientes de louça ou vidro e depois proceder à sua recolha e lavagem para reutilização, mas é possível fazer campanha para que um mesmo cliente reutilize o copo onde bebeu a cerveja anterior, se for cerveja o que vai continuar a beber… Quem passar no Bairro Alto a um sábado ou domingo de manhã, poderá aferir aquilo que é dito.

O que já não é compreensível é um espaço que se quer tão sofisticado como a loja Delta do Saldanha, onde tudo é estilizado e fardado a rigor, sirva os cafés (caros) em louça de designer, acompanhada de colheres descartáveis… É degradante, sem ser degradável.

O que aqui se refere, não é publicidade. Os bons e os maus exemplos, devem ser nomeados. Os bons comportamentos devem ser enaltecidos e os maus apontados. Perante eles, cada um agirá segundo a sua consciência.

Todos os cataclismos naturais que se vêm sucedendo, repentinos e atípicos têm a sua origem nas agressões constantes de o planeta é vítima. As recentes enxurradas na Madeira, como as cheias no México, os incêndios na Grécia ou o degelo da Antárctida não são naturais. Essas coisas acontecem motivadas por um comportamento agressivo e desprovido de razão no que toca ao ambiente e ao território.

Toda esta retórica soa como “pregar no deserto” mas se a nossa atitude não mudar, muito mais estará para acontecer ao nível das condições climatéricas e não será seguramente melhor.

2.21.2010

O necessário e o supérfluo

A Trilogia do Lixo - 2



Nas sociedades desenvolvidas, o chamado crescimento económico, anda de braço dado com a produção. Quanto mais rico e desenvolvido for o país, mais elevado é o consumo per-capita. Esse indicador que atesta o desenvolvimento do país e a riqueza deste e por extensão, dos seus cidadãos, não diferencia o necessário do supérfluo.

Em tempos de crise, o consumo retrai-se, os orçamentos encolhem-se, os gastos diminuem. Nessas alturas, racionalizam-se um pouco as compras, diminuindo a aquisição de bens supérfluos em prol dos necessários à subsistência.

Nessas situações, dependendo da duração e profundidade da crise, as empresas diminuem a produção, despedem trabalhadores, encerram as portas.
As bolsas entram em colapso, a economia em depressão, os países em estagnação, as pessoas em aflição.

As crises não são eternas e as depressões, estagnações e aflições, também não.

A seguir a uma crise económica, segue-se um período de euforia e prosperidade, até que nova crise sobrevenha e o ciclo se repita.

Ninguém aprendeu nada, nem tirou lições para o futuro. A produção de bens de consumo volta subir, o consumo desses bens dispara para níveis elevados. O crescimento e o consumo voltam a crescer e toda a gente fica feliz e contente.

O homem é o único animal que consome para além do necessário. Se este problema – porque efectivamente se trata de um problema – não é de agora, nunca como nos dias de hoje existiu a tendência para confundir tanto consumo com felicidade.

Nestas alturas ainda mais do que em outras o consumo do desnecessário dispara à custa de necessidades inventadas e de produtos criados à sombra dessa invenção. Objectos ainda capazes de ser utilizados e de cumprir a função para que foram criados, são substituídos por outros mais capazes ainda, portadores de muitas outras funções que provavelmente nunca iremos utilizar, mas que nos dá satisfação possuir.

Os “obsoletos” vão inexoravelmente para o lixo, seja ele reciclável ou não, atulhando o planeta de toda a sorte de detritos, com as consequências ambientais que ostensiva e deliberadamente ignoramos, porque temos a doentia propensão para só atender ao imediato, desleixando o saudável hábito da prevenção.

Nesta como noutras questões, atribuímos as responsabilidades a governos e instituições, sem querer saber que as responsabilidades individuais também contam e as atitudes pessoais também importam.

Aparentemente o pior desta crise já passou. Os celebrados indicadores parecem apontar para uma nova era de crescimento e consumo, que o mesmo é dizer, novos produtos, novos objectos capazes de nos tirarem o sono até que os possamos adquirir e, claro está, de um aumento de objectos deitados no lixo, aumentando a área desmesurada que este já ocupa na terra, no mar e no ar.

Que se lixe o lixo, vamos celebrar… venha mais felicidade!

1.29.2010

Tanto Lixo é um Luxo

A Trilogia do Lixo - 1


A sociedade da abundância em que supostamente vivemos, caracteriza-se entre outras coisas pelo excesso de produção, o que levanta questões com tanto de insólito quanto de contraditório, como seja o incessante crescimento da pobreza.

Mas na nossa sociedade evoluída e civilizada, não é só a pobreza que cresce. O lixo é outro dos flagelos que o “desenvolvimento” transporta consigo. Se estendermos à ideia genérica de lixo, todo o desperdício que é gerado pelo consumo, teremos um retrato muito mais fiel deste modelo de sociedade.

Nos nossos dias, o lixo e o desperdício, tendem a crescer de forma exponencial e descontrolada, de acordo com o modelo de desenvolvimento ocidental e concorrencial, ao qual as preocupações ambientais – ideia recente e sujeita também ela às oscilações da moda e às leis de mercado – não conseguem obstar de forma decisiva e consequente.

Estudos divulgados em 2009 que se reportam ao ano de 2007, apontam que cada europeu produziu nesse ano e em média 522Kg de lixo. O português, um pouco abaixo, produziu “apenas” 472Kg. De todo o lixo produzido, apenas 22% foi reciclado permanecendo o restante em lixeiras e aterros. Grande parte deste lixo, não é bio-degradável, sendo uma elevada percentagem dele constituído por plásticos. Estes dados referem-se apenas aos países da União Europeia, sobre o resto do mundo pouco se sabe.

Esporadicamente têm surgido na imprensa, em recônditos artigos e micro-crónicas consentâneos com a importância do assunto, referências acerca da existência de uma imensa “ilha de plástico” que algumas fontes garantem ter uma dimensão duas vezes superior à dos Estados Unidos. A dita “ilha” constituída por 100 milhões de toneladas de plástico não bio-degradável, não para de crescer. Esta imensidão de plástico flutuante situa-se no Oceano Pacífico entre o Japão e o Havai e mantém-se aí por força dos ventos e correntes marítimas dominantes. O “monstro” é conhecido desde 1997, mas até agora nada foi feito para inverter a aterradora tendência aumentativa da “criatura”.

Esta aglomeração de resíduos terá sido originada em 1/5 pelas repetidas descargas de navios e de plataformas petrolíferas, vindo a restante percentagem do continente. A “Sopa de Plástico” como lhe chamam foi já responsável pela morte de mais de um milhão de aves e de cem mil mamíferos marinhos, sem contabilizar as mortes indirectas pela integração do plástico na cadeia alimentar. No entanto, este “fenómeno” permanece esquecido, arrumado e muito pouco conhecido e quase nada comentado. Porquê?

Talvez porque se localize em águas internacionais de difícil acesso e pouco tráfego e principalmente porque o tratamento de tamanha imensidão tem custos e nenhum país estará interessado num investimento dessa envergadura sem quaisquer contrapartidas económicas.

Verdade apregoada e muito pouco escutada – os resultados práticos legitimam este pensar – diz-nos que se o consumo de plástico não for drasticamente reduzido o tamanho da ilha duplicará nos próximos dez anos (esta previsão reporta-se a 2007).

Uma das perguntas aterradoras que circula pela Blogosfera é o que acontecerá ao planeta quando os milhões que constituem a população chinesa por exemplo, se aproximar dos valores de produção de lixo do cidadão europeu ocidental e a todo o plástico de embalagem que todos os dias se produzem e se deitam fora.


Essa pergunta é pertinente, mas uma outra se impõe: Estará a época ficcionada em Wall-E ainda muito distante?

Obs.:

A “Sopa de Plástico” pode ser espreitada em:

http://tube.aeiou.pt/sopa-plastica-o-lixao-do-oceano-pacifico-fantastico-globo/

A “Sopa de Plástico” pode ser acompanhada em:

www.projectkaisei.org.

12.06.2009

O que faz mover o mundo...

... mas pela ordem inversa.

9.27.2009

em BRANCO


Em branco: Não escrito (*)

(*)
"Novo Dicionário da Língua Portuguesa"
Francisco Torrinha, Editorial Domingos Barreira, Porto - 1950

9.08.2009

A pé pela cidade

Andar a pé ou de transportes públicos é saudável num dos casos, cívico nos dois e extremamente útil e benéfico (por razões diferentes) em ambos.
No que ao andar a pé diz respeito, acrescentaria que, para além de um prazer passível de conter sentido estético, pode ser também um acto de higiene mental. O acto de caminhar convida à reflexão, à contemplação, à fruição, que a deslocação mecanizada o mais das vezes inviabiliza.

(…)
Através do andar, o homem começou a construir a paisagem natural que o rodeava (…) A acção de atravessar o espaço nasce da necessidade natural de mover-se com o fim de encontrar alimentos e informação indispensáveis para a sua sobrevivência. Não obstante, uma vez satisfeitas as exigências primárias, o facto de andar converteu-se em acção simbólica que permitiu que o homem habitasse o mundo.
(…)
in: Francesco Careri “Walkscapes”

No caso vertente, andar a pé é bom, não só porque – como já se disse - exercita o físico, propicia reflexão e observação como também, não provoca poluição. Poderiam ser aqui chamados alguns grandes “caminhadores” que preconizaram, praticaram e teorizaram as caminhadas como atitude estética. É o caso paradigmático de Charles Baudelaire, enquanto “flaneur”, reiterado e confirmado bastas vezes por Walter Benjamim. (*)

Diversos nomes grandes da literatura e das artes plásticas, clássicos ou contemporâneos, manifestaram-se incondicionais adeptos das caminhadas na sua componente estética, criativa, reflexiva ou interventiva. Robert Walsser no seu livro “O passeio e outras histórias” não se exime de declarar em letra de forma as virtudes do passeio a pé: “Num passeio longo e profuso ocorrem-me milhares de ideias úteis e utilizáveis. (…) Um passeio estimula-me profissionalmente, mas ao mesmo tempo dá-me pessoalmente descontracção e alegria; repousa-me, dá-me conforto e bem-estar, cons­titui um prazer e tem simultaneamente a propriedade de me espicaçar e estimular a não parar de criar, na medida em que me oferece para assunto fenómenos de valor variável, que mais tarde, em casa, elaboro com zelo e cuidado. Qualquer passeio está sempre cheio de fenómenos significativos, que vale a pena ver e sentir. Imagens, poemas vivos, encantamentos e belezas naturais, tudo isto fervilha literalmente num belo passeio, por mais pequeno que seja”.
Outros artistas e escritores, poderiam ser convocados por também eles contribuirem para a relevancia da caminhada, do passeio, no que à criatividade diz respeito. Entre estes, destacam-se Robert Smithson, Carl Andre ou Richard Long com a sua “A line made by walking”, fotografada durante uma caminhada realizada em Inglaterra, no ano de 1967.

Caminhar sempre, caminhar muito, é um óptimo pretexto para se conhecer o território ou o espírito do lugar, seja ele campo ou cidade. Qualquer pretexto é um bom pretexto, derive ele da uma pré-definida “rota dos monumentos” ou da leitura de um livro que contenha referências a um dado lugar ou uma paisagem específica (estou a lembrar-me de Saramago – o escritor - em dois casos precisos: “A história do cerco de Lisboa” e “O ano da morte de Ricardo Reis”). A comparação entre o lido e o observado, amplifica e diversifica as nossas percepções. É, asseguro, uma experiência interessantíssima que já me concedi o privilégio de experienciar.

Mas não tem necessárimanente que ser uma caminhada dirigida ou orientada. Pode ser apenas uma deriva casual, improvisada, não direccionada ou simplesmente inventada...

“Não conhecer bem os percursos de uma cidade não tem muito que se lhe diga. Perder-se, no entanto, numa cidade, tal como é possível acontecer num bosque, requer instrução” (*)

8.16.2009

O que aí vem…

Vamos ser confrontados muito proximamente, com dois actos eleitorais da maior importância para o país. É nessa condição que não me esquivo a manifestar opinião.

As eleições legislativas e autárquicas têm, cada uma delas, propósitos muito diferentes e finalidades muito distintas, mas estou em crer que as suas especificidades se irão diluir e deixar triturar nos rituais ruidosos e frenéticos em que as campanhas se tornaram. Aquilo que se discute ou está presente, nestas, raramente são os programas que cada força política se propõe (ou não) cumprir, mas as mirabolantes promessas que cada partido ou candidato, nestas alturas resolve alardear e amplificar. Isto para não falar em tudo o que antes ficou por fazer, mas que cada um à sua maneira se compromete realizar agora, sem explicar porque o não fez antes, e como irá conseguir faze-lo agora…

Época de promessas por excelência, é aquilo que aí vem, e é tão fácil prometer, quando não se tem (a maioria das vezes) a mínima intenção de cumprir… Como esquecer a tão clarificadora passagem do livro “Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar:

“O mais difícil foi persuadir Osroés de que se fazia poucas promessas era porque tencionava cumpri-las”

Mas os tempos são outros e ninguém está interessado numa campanha séria. O importante é prometer, não importa o quê. Quanto ao cumprimento, conta-se sempre com o que de curto a memória tem. Se assim não fosse, o circo não estaria montado a horas do espectáculo e o espectáculo já começou…

Vieram agora a público os números oficiais da última votação (para o Parlamento Europeu): Um em cada três eleitores não votou! A classe política estremeceu, os oráculos já pronunciaram, as luminárias do costume já decretaram. Há que tomar medidas.

Mas aos políticos (quase todos) não passa pela cabeça a moralização da classe, através da alteração dos hábitos, práticas e posturas… nada disso. Não se lhes desenha na mente ter comportamentos sérios, consentâneos com a dignidade dos cargos para que foram eleitos. Porque se assim fosse - e só como case study vale a pena referir isto - o partido no poder com a maioria absoluta de que dispõe, teria viabilizado as propostas de lei anti-corrupção que o seu deputado (agora exilado em Bruxelas) João Cravinho tentou fazer aprovar no parlamento. Tal lei, se eventualmente fosse aprovada, implicaria uma gigantesca operação de “higiene e limpeza” que parece não agradar a ninguém.

“Á mulher de César não basta ser séria. Tem de parecê-lo”. Esta frase célebre, importada da Roma antiga (muito anterior a Berlusconi…), adapta-se perfeitamente ao cenário político nacional. Por estas latitudes, o que se observa não é, nem uma coisa nem a outra, antes o contrário de ambas. Isaltinos, Loureiros, Felgueiras, Valentins e outros (muitos) mais, aí estão a comprová-lo, sem (quase) ninguém a reprová-lo e isso não deixa de ser espantoso! Claro que não se trata de querer substituir pela “praça pública” os tribunais a quem cabe por direito pronunciar juízos, mas a vergonha e o decoro são do foro da ética, não da justiça e uma como a outra, em Portugal não funcionam ou funcionam mal. Mas o espanto não se fica por aqui. Quando se pensa que já se viu e ouviu tudo, a nossa classe política e a corte de comentadores da dita volta a espantar-nos. Os que se consideram mais sérios e impolutos do que os demais também afinam pelo diapasão da falta de culpa formalizada!?! Jerónimo de Sousa, Pacheco Pereira, Francisco Louçã, Pulido Valente fazem coro com os demais… não se horrorizam, não se arrepiam, não se repugnam, que suspeitos e arguidos por aí andem impunemente a lutar pela impunidade ou a traficar responsabilidade que lhes garanta a imunidade … Fantástico, assim já sabemos com o que contamos! No dizer de Shakespeare “algo está podre no reino da Dinamarca”. Aqui, não parece, embora cheire.

Retomando o tema eleições, aos políticos de carreira, como se disse, não ocorre a que a ausência dos eleitores pode provir precisamente do descrédito que o seu comportamento provoca no cidadão comum. Daí a surgirem propostas como a de Carlos César (Presidente do Governo Regional dos Açores) que vêm na obrigatoriedade do voto a panaceia que ao regime resta para combater a abstenção. Tornar ou não o voto obrigatório, eis a questão.

Ninguém se indignou, ninguém se revoltou. Timidamente, o ex-presidente Jorge Sampaio veio a público dizer que o tema deveria ser estudado e debatido… Com franqueza, um e outro só podem estar a brincar ou talvez não e nestas tristes cabeças só nasçam pobres ideias como esta, para por a democracia a funcionar. De uma assentada, substitui-se o chamado “dever cívico” pela obrigação compulsiva. Como concretizariam isto não sei, nem quero imaginar. Se isto fosse avante, seguir-se-ia a punição dos votantes do branco e do nulo, provavelmente

A nenhuma destas cabeças formatadamente pensantes, em algum momento ocorreu que o desinteresse e o alheamento radicam nos próprios políticos e no seu desempenho, nas políticas que implementam, no sistema político de que se servem. Que o problema não está nas férias, nos feriados, ou no que quer que seja que queiram aventar ou inventar, que tudo tem a ver com o sistema que se instalou, com os vícios, a impunidade e as teias e conivências que forjou, e com a ideia de impotência que nas pessoas se gerou.

Obviamente que comungo da ideia de Churchill – um dos arquitectos do moderno edifício democrático em que vivemos – de que “a democracia é o pior de todos os sistemas políticos, com excepção de todos os outros”. Mas esta comunhão de opiniões não pode nem deve configurar uma aceitação passiva dos malefícios de que o nosso sistema político enferma. Como não deve nem pode ser impeditivo de movimentos de resistência – por vezes espontâneos que se geram – e a democracia tem dificuldade em digerir.

Quem não se lembra da celeuma levantada pelo “Ensaio sobre a Lucidez” de Saramago? Quem não recorda como os políticos do sistema se horrorizaram com a “epidemia branca” e o pretenso – subjacente ao livro - apelo do escritor ao voto em branco? Felizmente, para o bem comum, que Saramago se redimiu e recolheu ao redil, se conformou e confinou nos termos do negócio feito com a autarquia da capital e passou a celebrar e entusiasmar com as propostas do edil. Palavras para quê? È só mais um Zé que…

O Saramago escritor faz falta. O outro Saramago, nem por isso. Isto tem nome, chama-se tolerância, que é algo que faz mais falta do que todos os zés, sejam eles quais forem, nobeis ou não.

Impossível não recordar também aqui Solnado e o impagável refrão: “Senhor estou farto, Senhor estou farto!” Porque estou efectivamente farto.

Farto dos carreiristas oportunistas, que acusam os não votantes de demissionários, quando não de reaccionários, vociferando que não foi para isto que se lutou pela liberdade…

A liberdade, não pertence a ninguém. Não tem donos nem aferidores. A liberdade não deve excluir aqueles que não se revêem nestas fórmulas gastas e estafadas que ninguém tem a ousadia de querer regenerar. A verdadeira política, nas palavras de Jacques Rancière, faz-se no dissenso entre diferentes, entre as singularidades.

Tenho – como se terá evidenciado – uma opinião muito negativa sobre os políticas e a política que temos e estará “por nascer” aquele ou aquela que me farão mudar de opinião.

Até lá, vou continuar a dizer não!

An attitude is a little thing that makes a big difference” Churchill dixit.

Vamos a votos, ou vamos a vómitos?