
Digo:
de olhos fechados, era capaz de desenhar o mapa desse
corpo que as minhas mãos já não modelam,
a partir de percursos definidos a dois desejos que
afinal eram um só, em comunhão de urgências e aflições que
o sabermos do tempo efémero, convertia em desespero
Prossigo:
todos os sentidos são demais e não chegam e de olhos fechados sigo o
mapa que fiz de ti, relembrando cada curva, cada prega, cada sinal e
isso de nada me serve, agora que estás distante e
eu estou tão longe como se está, quando a distância está em nós
Retrocedo:
os sonhos que desbaratei, encontrei-os
espalhados pelo chão reflectidos
nas lágrimas que verti, sobre
telas que não pintei e papeis onde não escrevi as
cartas que te dediquei
Hesito:
também por isso fazia todo o sentido que te procurasse se era a ti que eu queria
apesar de nem sequer me encontrar, perdido que estou nestes lugares vazios onde
o turbilhão dos sentimentos que me habitam, fazem fronteira entre
aquilo que sou e o que queria ser
Recordo:
e numa tarde olhaste-me profundamente e disseste:
‒ “Tens um olhar tão triste”
Pensei: triste o olhar e eu com ele, por nos saber tão efémeros como
dizem que são as paixões cujo fim tentámos adiar, condenados que estávamos à
gloriosa e sofrida separação dos amantes, que a história sempre enaltece
Lamento:
o meu olhar permanece o mesmo ainda que
tu agora não dês conta, e os vestígios do que fomos se
encontrem dispersos pelos canteiros da memória que
é o único lugar aonde agora vamos
Reflicto:
o orgulho tem destas coisas que o preconceito acentua, fazendo
de mim uma ilha à deriva por entre frases inacabadas que o destino ignora; e
em tudo isso me revejo, confrontado com um tempo sem ti, que
se arrasta como pena a cumprir por entre as marcas que deixaste, nos
desenhos rasurados que não consigo terminar