"Faço-lhe notar que um ser humano que não sonha é como um corpo que não transpira: armazena uma porção de toxinas"
Truman Capote

2.19.2006

Devendra (1 Artista)

Todos nós, e por este ”nós” entenda-se os apreciadores das músicas deste tempo, passamos por isto: Haver o “disco do momento”. Aquele disco que, por uma razão ou outra é mais escutado que os outros. Seja no atelier ou em casa, para acompanhar a feitura de um trabalho, o desenrolar de um projecto ou tão-só para escutar.

Ele aqui fica então o meu disco do momento: “Black Babies”















Não se trata, em absoluto, de nada do género “se fosse para uma ilha deserta e só pudesse levar 10 discos… Trata-se antes pelo contrário de um regresso ao prazer das coisas simples, na verdade, só aparentemente simples.

Se nos conseguirmos abstrair do ar messiânico do personagem Banhart, tal como tem surgido nas fotos promocionais, das hordas apostólicas que já gerou cá pelo burgo e do marketing evangelizador que o rodeia, a disponibilidade para apreciar a música será maior e isenta de preconceitos desnecessariamente redutores.

Digo isto sem quaisquer problemas, até porque não integro qualquer congregação, seja lá ela do que for. Se neste particular pertenço à imensa minoria dos que escutam Devendra Banhart é pelo inegável sensação de prazer que tal audição me transmite. Creio ser este um caso pontual e de modo algum merecedor de maiores cuidados…

Esta “onda” acústica ou semi, dificilmente simples (não nos iludamos, porque a simplicidade é muito difícil de conseguir) teve percursores como Dylan e Cohen – refiro estes para não recuar demais no tempo – mas também os que se seguiram como Tim Rose, Nick Drake, Tim Hardin, Loudon Wainwright III (precisamente… pai de Rufus) e “os” Buckley, pai e filho.

Não seria de modo algum descabido, convocar aqui Sid Barrett na qualidade de grande visionário oficiante, o que quadra bem com a postura entre o místico (a fazer lembrar Rasputine) e o onírico de Devendra, ambos com os mesmos propósitos ocultos de transformar a nossa esfera em algo senão melhor, pelo menos mais agradável de suportar

É conhecido por quem se interessa por estas coisas, que o homem não caminha só. Em termos puramente musicais e continuando a falar de coisas simples, a brecha havia sido recentemente reaberta, numa vertente menos etérea é certo, por Beck Hansen no semi-ostracizado “One foot in the grave” (retocado e polido depois em “Sea Change” e continuadamente escavada por gente como Damien Rice, Matt Elliott, Mica P. Hinson, Chris Brokow. José González e sei lá quantos mais.

Inevitavelmente acabará por suceder o que sempre sucedeu e sucederá na moldura social e global em que vivemos (agora com uma rapidez maior). A novidade de hoje será inevitavelmente descartada amanhã para ser reciclada a médio prazo sob um outro embrulho e decorada com novos adjectivos. É assim na moda, na música ou noutras artes. As economias de mercado, trituram e/ou absorvem até os fenómenos mais radicais, controversos e contestatários. Veja-se o que se passa agora mesmo com a recém elevação ao Olimpo do Dylan de “Blowing in the wind” e “The times they are changing”.

Não é minha vontade participar em novos endeusamentos pós crucificação e redenção/remissão dos antigos, Como não é minha intenção que esta prosa seja tomada por aquilo que não é. Faço questão de afirmar que esta não é, de todo a apologia do “regresso à pureza primordial” desde o episódio na maçã, protagonizado por um duo denominado Adão & Eva.

Voltando ao tema central deste texto, quero salientar que acho muito bem que Devendra Banhart desfrute a fama de que neste momento goza. Ironia das ironias é ter começado a fazê-lo pela mão do (naturalmente nascido) iconoclasta ex-Swans Michael Gira!!! Coisas do destino que também passam por atendedores de chamadas…

Não obstante a fama e o estatuto já alcançados, Banhart tem pugnado por trazer para a ribalta nomes e personagens obscuros da cena musical em compilações que organiza ou inspira. Por essa via é dado conhecer à “imensa minoria” que o segue e aprecia, músicos que de outro modo seriam do conhecimento exclusivo de uma minoria ainda mais imensa.

Pode referir-se por exemplo Joanna Newsom, que já cá esteve na ZDB e no Santiago Alquimista (aqui, via Smog) ou Josephine Foster, Iron & Wine ou Little Things entre outros que integram o CD compilação de 2004 “Golden Apples of the Sun”, que não é caso único.















Para terminar, não posso deixar de referir o facto das capas dos seus discos serem da sua autoria o que não é um dado menor, e confessar que gosto muito das capas e da sua inscrição nesse universo peculiar que é o de Devendra Banhart. Claro que não seria preciso dizer que também gosto dos discos. Dos óbvios e obrigatórios, mas também deste. Especialmente este, que não é nem uma coisa nem outra e tem uma capa muito bonita.

2 comments:

Mariachi said...

Hhmmm

Costumo usar o "Niño Rojo" como a um comprimido! Cura-me qualquer má-disposição!

Margarida said...

Muito bom, tem sido uma excelente companhia e devo-o a ti!