"Faço-lhe notar que um ser humano que não sonha é como um corpo que não transpira: armazena uma porção de toxinas"
Truman Capote

10.17.2011

uns olham, outros esperam; alguns caminham

Sentados algures, apoiados nas paredes ou recolhidos nos umbrais, observamos atentamente os que vão, os que vêm e também os que apenas estão, que pensam seguramente noutra coisa enquanto nós pensamos neles.

Cruzamos olhares, interessamo-nos. Algumas vezes – muito raramente – acercamo-nos, ingressamos na multidão e encetamos um passeio sem desígnio, discretamente, para melhor observar: fazemos parte, mas não nos misturamos.

Evitando ser notados, seguimos uns e esquecemos outros, ignorando os seus objectivos e propósitos – sequer se os têm – como aliás ignoramos tudo o resto. Nada do que fazem, dos gestos que esboçam, da direcção que tomam, nos deixa perceber as suas motivações. Contudo, atribuímos-lhes uma história, construímos-lhes vidas

Entre os que olham e os que esperam, alguns caminham. Dirigem-se a que lugar, vindos de onde? E os que esperam? Esperam o quê ou a quem? E os que olham? Olham para onde, olham para quem? Assim desafiados, seguimos os que caminham, esperamos com os que esperam, perscrutamos os que olham, sem que em momento algum saibamos para onde vão, o que esperam ou o que observam.

Apesar disso, temos prazer em vê-los sem que dêem por nós, sem que nos vejam.