"Faço-lhe notar que um ser humano que não sonha é como um corpo que não transpira: armazena uma porção de toxinas"
Truman Capote

3.02.2006

Broken Flowers


Já ouvi alguém dizer, que se “Broken Flowers” tivesse sido realizado por outro indivíduo, não teria a repercussão que teve.

Não sei se quem o afirmou quereria mesmo empregar repercussão, porque para a ironia funcionar em pleno deveria ter sido dito sucesso… e o sucesso não fica bem aos autores de culto.
Como todos sabemos, o autor ou objecto de culto, tem alguns requisitos a cumprir: Estar nos antípodas do sucesso, ter um diminuto número de aguerridos seguidores e suscitar a indiferença generalizada, porque se assim não for…

O que eu sei é que dificilmente um filme assim poderia ter sido realizado por outra pessoa que não Jarmusch.

Aliás, apetece-me acrescentar, por comparação que já se escutaram comentários de teor similar, acerca por exemplo, de pinturas de Juan Miró…

Voltando ao filme, é evidente que não se trata de um marco na história do cinema, nem se trata sequer de um filme notável. É apenas um filme, um produto sério de um realizador honesto, que apesar do cerco resiste e continua fiel a si próprio, o que numa época de infidelidades e hipotecas várias, é por si só um feito.

Mas… nestas coisas existe sempre um mas, se tudo o mais não bastasse, teríamos a personagem incontornável de Bill Murray, que sem rasgos de coisa nenhuma, impõe a sua presença serena e imperturbável através de todo o filme – como já o havia feito em Lost in Translation de Sofia Coppola – para aquém e para além do caricato de algumas das situações em que o argumento o envolve.

Por causa de “Broken Flowers” que se encontra em reposição, acabei por rever em DVD “Lost in Translation", aproveitando para matar saudades (sonoras saudades) de Kevin Shields e demais intervenientes na banda sonora.
Depois da revisão, a ideia que tinha acentuou-se. Estes dois filmes, não sendo obras-primas (ainda se fazem?), estão bastante acima da mediania. Ambos são suficientemente ambíguos para proporcionarem mais do que a leitura imediatista em que a generalidade do cinema americano actual se encerra e ambos se encontram povoados de personagens errantes e espessas ao ponto de se tornarem enigmáticas.


Isto assenta perfeitamente a Bill Murray e à forma suave como cruza as cenas, com plena consciência do inelutável, que não é o mesmo que resignação.


Porque Bill Murray é o elo de ligação entre estes dois filmes, serve de forma excelente como pretexto para referir aqui um terceiro: “Coffee and Cigarettes” também de Jim Jarmusch onde o mesmo Bill Murray representa, nada mais, nada menos do que o papel de si próprio…

Fica aqui a ameaça, de café e cigarros, voltarei a falar aqui em breve.

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